O abuso nem sempre começa parecendo abuso.
Há sete anos, quando decidi me profissionalizar na cartomancia, uma das coisas que escolhi fazer foi ajudar pessoas que estavam vivendo relacionamentos abusivos.
Eu tinha acabado de sair de um relacionamento assim, que durou quase quatro anos. E talvez por ter vivido aquilo, eu sempre tive um olhar muito atento para as pessoas que chegavam até mim tentando entender o que estava acontecendo dentro das próprias relações.
Ao longo desses anos, eu percebi uma coisa que considero muito importante: um relacionamento abusivo quase nunca começa parecendo abuso.
Ele começa silencioso.
Parece cuidado. Parece preocupação. Parece amor forte demais. Parece alguém que sente muito, que quer estar perto o tempo inteiro, que tem medo de te perder.
E, aos poucos, aquilo que parecia cuidado começa a virar controle.
A preocupação vira cobrança.
O ciúme vira vigilância.
O amor vira posse.
A pessoa começa a escolher por você, questionar suas amizades, controlar seus passos, distorcer situações e fazer você duvidar daquilo que viu, sentiu e viveu.
Quando você percebe, está pisando em ovos dentro de uma relação que deveria ser o lugar onde você se sente seguro.
E talvez uma das partes mais cruéis da manipulação seja justamente essa: fazer você acreditar que o problema é você.
Você começa a pensar que está cobrando demais, sentindo demais, pedindo demais, reclamando demais. Começa a procurar em si mesmo o motivo pelo qual a outra pessoa te trata mal.
Mas nem sempre o erro está em quem está tentando entender, conversar, melhorar e salvar a relação.
Às vezes, o problema está justamente em quem transforma a sua vida em uma bagunça e depois faz você acreditar que foi você quem causou tudo aquilo.
Hoje, vivendo um amor tranquilo, eu consigo ter ainda mais certeza de uma coisa que aprendi tanto pela experiência quanto ouvindo tantas histórias ao longo da minha carreira: amor não precisa ser uma guerra para ser intenso.
Dá para amar e ter calma.
Dá para gostar de alguém sem controlar.
Dá para sentir medo de perder sem transformar esse medo em ameaça.
Dá para existir conflito sem existir manipulação.
E quando uma pessoa realmente quer estar com você, muitas vezes o "sim" dela é muito claro.
Você não precisa passar o tempo inteiro tentando descobrir se ela gosta de você. As atitudes mostram.
A pessoa conversa. Escuta. Reconhece quando erra. Muda comportamentos. Procura melhorar porque não quer te perder e porque entende que amar alguém também significa cuidar da forma como você afeta essa pessoa.
Não é sobre alguém perfeito. É sobre alguém disposto.
Porque existe uma diferença enorme entre uma pessoa que erra e tenta reparar o erro e uma pessoa que erra, te machuca, culpa você pela própria atitude e depois repete tudo de novo.
O amor tranquilo me ensinou algo que eu gostaria que muitas pessoas aprendessem antes de precisar sofrer tanto para entender:
quando alguém realmente quer construir uma vida com você, essa pessoa não precisa destruir a sua paz para provar que sente alguma coisa.
Amor pode ser intenso sem ser confuso.
Pode ser profundo sem ser doloroso.
Pode ter problemas sem transformar a sua vida em um caos.
E talvez o maior sinal de que você está sendo amado não seja a quantidade de vezes que alguém diz que te ama, mas o quanto as atitudes dessa pessoa fazem você se sentir seguro para existir dentro da relação.
Porque palavras podem mentir.
Mas atitudes contam uma história muito mais difícil de esconder.
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